Uma Europa poderosa, uma aposta na campanha presidencial

Ao ler o Carta a todos os franceses escrito por François Mitterrand em abril de 1988, rapidamente lembramos que o tema europeu não é novo nas campanhas presidenciais francesas.

As que resultaram nas vitórias de Jacques Chirac (duas vezes), Nicolas Sarkozy, François Hollande e Emmanuel Macron também viram a construção europeia emergir como tema principal. O que muda com a campanha de 2022 é que a construção europeia não é mais abordada apenas do ponto de vista do agrupamento das políticas econômicas nacionais, mas também do lugar da Europa no mundo.

Na campanha de 2022, assistimos claramente a um deslocamento do tema europeu para o internacional, ou seja, um debate onde nos interrogamos sobre a posição que a França deve adotar para que a UE se torne um verdadeiro ator na política externa e de segurança, e portanto, um poder.

Os candidatos procuram agora responder a esta pergunta dos eleitores: a UE ajuda a França a existir no concerto mundial de potências? Essa preocupação internacionalista com programas não é apenas o resultado da intervenção militar na Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. O tropismo de poder estava presente antes dos trágicos acontecimentos que se desenrolavam às portas da UE, como pode ser visto, por exemplo, consultando o projeto apresentado por Emmanuel Macron.

O que queremos dizer com “Europa poderosa”?

O tema da “Europa poderosa” foi inventado na França. É sempre difícil traçar a gênese exata de um conceito usado no discurso político. Milho nós atribuímos geralmente a paternidade de Jean François-Poncet, que foi ministro das Relações Exteriores de Valéry Giscard d'Estaing de 1978 a 1981. O tema foi então retomado por muitos líderes políticos franceses. Pretendia-se enfatizar que a Europa tinha que ser uma potência militar, pois o continente não podia depender apenas da garantia de segurança dos Estados Unidos.

Nesse pensamento francês, há a herança do general de Gaulle, de quem muitos candidatos (de Emmanuel Macron a Éric Zemmour passando por Jean-Luc Mélenchon) afirmam estar na campanha eleitoral. Durante seu primeiro mandato, Emmanuel Macron retomou o tema de uma Europa poderosa a ponto de torná-lo um dos slogans do Presidência francesa do Conselho da União Europeia que começou no dia 1er Janeiro passado.

Por detrás deste conceito de uma Europa poderosa, está também a convicção de que, para não renunciar à "grandeza" da França (outra herança gaulesa), devemos jogar o jogo da UE exercendo ao máximo a liderança.

Uma linha divisória

Na leitura dos programas, no entanto, surge uma divisão entre os candidatos que consideram o poder europeu como o meio para salvar a grandeza da França (Emmanuel Macron, Yannick Jadot, Anne Hidalgo), aqueles que o recusam totalmente em nome da única abordagem nacional (Marine Le Pen, Éric Zemmour, Jean-Luc Mélenchon, Fabien Roussel), e aqueles que se encontram entre os dois porque seu eleitorado tradicional está dividido nesta questão (Valérie Pécresse).

Essas várias posições estão alinhadas com uma grande preocupação dos cidadãos franceses com o futuro de seu país: como a França pode continuar influente em um sistema internacional que viu o surgimento, desde o fim da Guerra Fria, de novas potências como a China, Índia ou Brasil? Devemos consolidar a Europa para permanecer “grande” aceitando a existência de uma nova soberania europeia ou devemos, inversamente, assumir mais do que nunca uma soberania nacional estrita?

A divisão pode ser vista primeiro nas propostas dos candidatos sobre a política de defesa europeia, mais uma vez independentemente da intervenção russa na Ucrânia. Vários candidatos querem reforçar esta política de defesa europeia, para melhor garantir a segurança da França (Macron, Jadot, Hidalgo, Pécresse), enquanto outros (Le Pen, Zemmour, Mélenchon) rejeitam esta opção e ao mesmo tempo defendem a saída da França da O comando militar integrado da OTAN, ou seja, um retorno puro e simples à ortodoxia gaullista.

Também não é por acaso que todos os capítulos dos programas dedicados às questões europeias tratam das relações com a China e com a Rússia. Aos olhos de Macron, Jadot e Hidalgo, a UE deve permitir que a França tenha mais influência nas negociações (comércio, clima, energia) com regimes autoritários. Por seu lado, Zemmour, Le Pen e Mélenchon evocam antes a necessidade de uma “boa” relação bilateral entre a França e a Rússia e a China, o que permitiria a Paris não – ou apenas ligeiramente – preocupar-se com a opinião dos outros Estados da UE sobre esta questão. questão.

Nesse sentido, as pesquisas realizadas após o início da intervenção militar russa na Ucrânia em 24 de fevereiro mostraram que essa operação armada não serviu aos candidatos da extrema direita e da extrema esquerda, considerados muito complacente para Moscou. Observe, no entanto, que a vitória maciça do partido de Viktor Orban nas eleições legislativas húngaras de 3 de abril tende a mostrar que parecer alinhado com o Kremlin não é necessariamente sinônimo de derrota nas urnas.

Migrações, ambiente: que dimensão europeia?

Outra questão de alcance internacional que se encontra em todas as partes dos programas que tratam da Europa é a imigração. Vários candidatos (Macron, Jadot, Mélenchon) apelam ao reforço da coordenação nas fronteiras externas da UE, a fim de conseguir um tratamento "racionalizado" dos fluxos migratórios. Defendem, portanto, um reforço dos acordos de Schengen. Para os candidatos de extrema-direita e de direita (Zemmour, Le Pen, Pécresse), a UE é incapaz de controlar os fluxos migratórios que só um reforço das medidas nacionais nas fronteiras da França poderia reduzir.

Os candidatos que insistem na responsabilidade da França nas políticas ambientais (Jadot, Hidalgo, Roussel) também o fazem defendendo uma abordagem europeia para o resto do mundo. Yannick Jadot vê isso, por exemplo, como o elemento-chave da parceria reforçada que deve ser tecida entre a UE e a África.

Por fim, o tema do alargamento da UE é abordado em conexão com o poder europeu, ainda que indiretamente.

Alargamento uma fonte de preocupação

Observemos, em primeiro lugar, que um rápido alargamento da UE aos Balcãs Ocidentais e à Turquia não agrada a nenhum candidato. A situação é um pouco diferente no que diz respeito a uma candidatura acelerada da Ucrânia desde que um candidato (Hidalgo) diz apoiá-lo sem fazer o mesmo com a Geórgia e a Moldávia.

A falta de entusiasmo geral em relação ao alargamento é explicada por alguns (como Le Pen ou Pécresse) por uma visão segundo a qual esta opção traria muitos males, como fluxos migratórios, crime organizado ou concorrência desleal. Mas para outros (como Macron), o alargamento não é desejável porque comprometeria um aprofundamento da governação europeia, necessária para a emergência de uma Europa poderosa.

A “grandeza” da França em questão

Já ficou para trás o tempo em que a construção europeia consistia em os candidatos às eleições presidenciais se perguntarem se era necessário cooperar para criar um mercado interno ou uma moeda única.

A partir de agora, o lugar da UE no mundo preenche os programas, porque este tema preocupa os franceses. Por trás dessa expectativa, está a percepção de que o lugar da França nas relações internacionais diminuiu desde o fim da Guerra Fria. Acima de tudo, há a herança francesa de “grandeza”, da qual os franceses se perguntam se o poder europeu é ou não a condição para seu resgate.

Christian Lequesne, Professor de ciência política, Sciences Po

Este artigo foi republicado a partir de A Conversação sob licença Creative Commons. Leia oartigo original.

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