Os jovens zombam da ortografia?

Os jovens riem da ortografia

Com o advento da internet e dos smartphones, a comunicação escrita foi enriquecida com expressões informais. Escrever a alguém não é mais necessariamente adotar os códigos da carta. A chamada "linguagem dos SMS" está a ter um certo sucesso, embora a sua utilização esteja longe de ser generalizada, mesmo no escrita digital...

Esses usos alternativos são frequentemente associados às práticas de escrita dos jovens, mesmo que não sejam reservados a nenhuma geração. Ao mesmo tempo, o declínio na ortografia alunos educados na França por várias décadas está bem documentado. Seria então tentador fazer uma ligação entre os dois: não estariam as novas gerações conscientes da utilidade social da ortografia? Práticas de escrita menos padronizadas, ligadas aos usos digitais, influenciam sua relação com a escrita?

Uma investigação realizada, no âmbito de uma tese, com 178 alunos se preparando para um BTS terciário (certificado de técnico superior) em 2017 fornece algumas respostas a estas perguntas. Trata-se de uma amostra limitada, mas que tem a vantagem de ser variada em termos de origem educacional, pois inclui bacharelado geral, tecnológico e profissional.

Além disso, trata-se de alunos que se preparam para exercer uma profissão onde a escrita desempenha um papel importante, uma vez que estão a formar-se para serem assistentes executivos, trabalhar no turismo ou no suporte informático às organizações. Foi, portanto, particularmente interessante recolher as suas representações sobre o papel social da ortografia.

Dar uma boa auto-imagem

Os alunos entrevistados foram questionados sobre importância dada à ortografia nos contextos escolar, profissional e privado. A importância acadêmica da ortografia é reconhecida, pois 46% deles a consideram necessária e 47% importante para passar nos exames. Mas a importância profissional de um bom domínio da ortografia parece ainda mais marcante aos seus olhos, pois 57% declaram necessário e 38% importante para ter sucesso na vida profissional.

Alguns entrevistados também foram expostos em sua formação a aulas de ortografia que atenderam a essa necessidade profissional. Se alguns contestam os termos, às vezes percebidos como infantilizantes, ninguém questiona sua utilidade.

As entrevistas mostram que essa importância dada à ortografia no contexto profissional está ligada à ideia de que a ortografia influencia a imagem que o leitor tem do autor da mensagem. Um aluno usa uma metáfora bastante eloquente a esse respeito: “ter uma boa ortografia é como estar bem vestido na vida real”. Tratar-se-ia, portanto, em situações de comunicação mediada pela escrita, de respeitar o padrão que possibilitará ser percebido como um profissional sério.

Os tipos de escrita referidos por estes alunos no processo de profissionalização são, por vezes, escritos profissionais (cartas, relatórios, etc.), mas sobretudo escritos associados ao processo de recrutamento que lhes dizem respeito em primeiro lugar: o CV e a carta de apresentação. Sua visão da ortografia dentro desse processo é particularmente relevante, pois foi demonstrado que erros ortográficos têm uma influência muito negativa sobre como os recrutadores julgam esses documentos.

Adapte-se ao contexto de comunicação

Em contextos profissionais e escolares, os inquiridos têm assim uma perfeita consciência do papel social da ortografia e muito poucos o questionam. Mas e no domínio privado? E em particular nas práticas de escrita digital, como as redes sociais ou SMS?

O apego a uma ortografia padronizada também é ilustrado nesta parte da pesquisa. Cerca de 40% dizem que sempre prestam atenção à ortografia em mensagens de texto, independentemente do contexto. Eles são menos de 10% para declarar que prestam atenção nisso apenas raramente, ou nunca. Os 50% restantes disseram que às vezes prestam atenção nisso.

As entrevistas permitiram mostrar que se trata sobretudo de adaptar os métodos de comunicação ao destinatário. As trocas com pessoas desconhecidas, adultos e, a fortiori, professores ou profissionais são, portanto, mais frequentemente feitas em ortografia padronizada. Estes alunos demonstram assim que estão conscientes da necessidade de adaptar a comunicação ao destinatário.

Também é digno de nota que aqueles que dizem recorrer a procedimentos alternativos como a abreviação não o assimilam de forma alguma a negligência ortográfica. Alguns declaram, ao contrário, permanecer atentos aos acordos, mesmo que se permitam formas abreviadas. Trata-se de adaptar o código utilizado às condicionantes materiais de uma comunicação que deve ser rápida.

De forma mais geral, as escolhas ortográficas parecem estar vinculadas à rede social, em sentido amplo, em que ocorre a comunicação. Como seria de esperar, alguns dizem que estão mais relaxados com os amigos porque sabem que não prestam muita atenção à ortografia. Mas a situação oposta também existe e uma aluna chega a dizer que fez progressos na ortografia na faculdade graças às trocas de SMS com a sua melhor amiga que tinha uma ortografia excelente e cuja influência lhe permitia progredir.

Os desafios de um sistema ortográfico muito complexo

O mesmo se aplica às trocas online que podem assumir diversas formas, algumas das quais se revelam favoráveis ​​ao desenvolvimento da ortografia. Em nosso corpus, isso é particularmente verdadeiro para os poucos alunos que afirmam participar de fóruns de RPG.

Essa prática de RPG online realmente envolve fazer os personagens existirem textualmente. Baseia-se, portanto, em uma prática de escrita e leitura, que padece de ortografia fora do padrão. Todos os alunos envolvidos testemunham a pressão que os coordenadores destes fóruns exercem sobre os participantes para que cumpram a norma ortográfica.

À escala do nosso corpus, as práticas de escrita digital não se apresentam, portanto, como um obstáculo ao desenvolvimento das competências ortográficas. O cumprimento da norma não depende do suporte, mas do contexto social e, de acordo com o que sabemos do relatório de falantes de francês para ortografia, este é frequentemente favorável a uma ortografia padronizada.

Permanece, porém, o paradoxo de que nossa pesquisa também confirmou aquilo com que abrimos nosso artigo, ou seja, a dificuldade desses alunos educados na França em produzir textos isentos de erros ortográficos, em especial no que diz respeito à ortografia gramatical.

Se isso não vem do desinteresse pela ortografia, se eles têm plena consciência do papel que a ortografia pode ter na sua vida profissional, de onde vem essa dificuldade? Nossos resultados sugerem que não se trata de negligência, mas de dificuldades na implementação do sistema ortográfico do francês, reconhecido como extremamente complexo. Pode-se legitimamente questionar sobre as consequências práticas dessa discrepância entre uma forte consciência de uma demanda social e a dificuldade real de respondê-la.

Helene Lelever, Professora de Ciências da Linguagem no INSPÉ de Estrasburgo, Universidade de Estrasburgo

Este artigo foi republicado a partir de A Conversação sob licença Creative Commons. Leia oartigo original.

Crédito da imagem: Shutterstock/Artie Medvedev

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